Lembranças de Sandra Jones
Dallas se olhou no espelho. Tudo que viu foi um velho tosquiado pelo tempo e atropelado por um cotidiano bizarro. Era apenas o resto de um antigo e respeitado membro dos Coveiros. A mais suja gang de motoqueiros do baixo Ipiranga.
Suas únicas companhias eram os velhos protagonistas de filmes sobre motocicletas. Marlon Brando, Mickey Rourke e o lendário Dennis Hooper. Eles travavam conversas intermináveis, exaltadas e fanfarronas. Quase sempre regadas a whisky vagabundo. Vivia reclamando que Hooper secava as garrafas rápido demais e que Mickey era muito trancado, mas reconhecia no seu amigo um verdadeiro outsider e talvez fosse de quem mais gostasse. Quanto a Brando, esse era um sujeito de classe. Só recebia o velho selvagem quando tinha um bom bourbon no seu galpão, onde funcionava uma oficina de motos.
Desde que sua amante, Sandra Jones, fora estuprada e morta quinze anos atrás, Dallas se fechou em copas. Da porta da oficina para fora o mundo lhe parecia pouco amistoso, exalava um odor podre coberto pela fuligem. Qualquer sinal da humanidade causava-lhe enorme desprezo e um embrulho no estômago. Sua fuga para tudo aquilo era a lembrança singela de Sandra massageando seu corpo bronco numa banheira fumegante repleta de cânfora. As mãos de sua amada jamais tocariam seu corpo novamente. Pensar naquilo era como repetir inúmeras vezes o mesmo castigo.
Sua amizade com os motoqueiros dos filmes tinha se tornado mais intensa no último ano. Mickey visitava a oficina de Dallas com freqüência e gozava sem pudor a obsessão do amigo pela banheira canforada e as lembranças de Sandrinha. Dizia que aquilo precisava ter um fim. Brando insistia que aquele lugar era carente de mulheres e que levaria umas boas para que todos pudessem se divertir. Dallas escutava com desdém, mas no fundo se entusiasmava com a malandragem de seus chapas. Mickey estava para chegar com algumas meninas e Hooper provavelmente levaria mais um bocado delas. Eles haviam prometido mulheres e umas boas garrafas de whisky. Dallas olhou para o espelho novamente e escondeu um punhado de cânfora no tanque de sua Harley. Há quinze anos ele não sentia o cheiro de uma fêmea.
Passaram algumas semanas e nenhum deles apareceu. Por mais que se esforçasse não conseguia montar a cena de Sandra massageando seu corpo. Havia uma lembrança sem consistência. Restava apenas a noite rosnando como um cão solitário e faminto. Olhava para as paredes do galpão e não via nada além de pôsteres de seus ídolos. Nenhum fantasma em sua companhia. Apenas alguns gatos famintos e camundongos simpáticos. Então Dallas vestiu sua jaqueta surrada pelos bons tempos. Abriu a porta do galpão e ligou sua Harley. Olhou através do breu e viu dois faróis devorando a Avenida do Estado a uns 100 km/h. O cegonheiro carregado se aproximava de sua motoca. Havia apenas uma ratazana velha pra testemunhar aquilo. Apenas um segundo. E um cheiro de sangue, gasolina e cânfora se espalhavam no meio da neblina.
Escrito por Ricardo Carlaccio às 15h05
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