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Na beirada da calçada
Algumas coisas ficam na beirada da calçada. Nas tardes de sábado. Na bola de capotão ensebada. No três dentro, três fora. Na imaginação de qual tamanho seria a calcinha da Edilú, cavalona memorável do Butantan, a inspiração da primeira punheta. Alguma coisa sempre poderia acontecer depois que o sol se arrebentasse atrás da linha de transmissão. Todos tinham a sensação que poderiam perder o cabaço. Que poderiam dar um tiro no escuro. Que o dia seguinte fosse o dia em que o padre se assumisse um alcoólatra irreversível e cabulasse a missa.
Às vezes eu cabulava o catecismo e ficava caçando amora madura no meio do caminho. Algumas horas sozinho assassinando o tempo. Fuzilando inimigos imaginários. Botando pimenta na pureza que podia se esperar de uma criança. Sabia quando ia tomar uma boa surra de minha mãe. Eu praticava vilanias que se pode esperar de qualquer moleque que tem colhões. Nunca adiei nenhuma delas, nem as vilanias, nem as surras. De algum modo elas me fortaleciam. Geralmente elas aconteciam nas sextas, ou sábados à tarde. Depois de uma boa sova eu me trancava no quarto e me sentia tranqüilo. Apaziguado com meus pecados que eu praticava com certo talento. Aliás, as surras eu recebia com certo talento também.
O pior dos pecados aconteceu no dia em que o São Paulo foi campeão em cima da Portuguesa, no campeonato paulista de 1985. O Eduzinho, pequeno mala e viado precoce fazia uma festinha de aniversário no quintal da sua casa. Eu não ia com a cara do moleque, era rosado como uma garota e tinha uma bunda grande e redonda como de uma garota também. Nunca brigava e era dono de uma educação que nem as garotas mais civilizadas tinham. Enfim o Eduzinho era uma garota e não sabia. Talvez quando crescesse virasse travesti. Seu rabo era promissor. Pinico, o vilão mestre e sujo como deve ser um moleque de dez anos deu o gancho. Apresentou-me uma pequena revista onde uma ninfeta loira mostrava seus pentelhos na primeira página e na segunda já era sodomizada por dois caras. Na última ela recebia um bom jato de porra na cara e ostentava um sorriso de imensa satisfação. Automaticamente sentimos vontade de fazer o mesmo com uma menina. Não havia nenhuma por perto que toparia. Pensamos em agarrar a Edilú dentro de seu mini shorts. Ela oferecia e não dava, e isso era desleal. Desistimos dela logo de cara, pois não conseguiríamos dominá-la com eficiência por causa de seu corpo avantajado. Então submetê-la aos nossos desejos estava fora de cogitação. Não restou dúvida, o Eduzinho seria nossa garota. Educado e servil como só um futuro idiota pode ser. Topou ir até a linha de transmissão com a gente. Era seu aniversário. Iríamos lhe dar um presente. Um par de rolas latejantes. Era só usar a imaginação que ele até poderia se parecer com a garota da revistinha. No pé do morro o levantamos pelo shortinho até que ficasse bem atolado no seu rabo. Ele ria sem graça. Como uma putinha insegura. Então o Pinico olhou pra cara dele e disse “Vou arrancar bosta do teu cu, seu viado”. O merdinha abriu um berreiro, se desvencilhou da gente com a força que só a sobrevivência é capaz de oferecer e saiu correndo e chorando. Naquele momento éramos estupradores de pequenos seres efeminados. Nunca mais fomos convidados pra suas festinhas que, fora a comida farta e a bunda de sua mãe, o que era uma grande vantagem, não oferecia nenhuma emoção de verdade.
Escrito por Ricardo Carlaccio às 14h24
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