NEAL CASSADY ROUBOU MEU MAVECO
     
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Chapado, chapado, chapado

Amo-te tanto que te não sei amar, amo tanto teu corpo e o que em ti não é o teu corpo que não compreendo porque nos perdemos se a cada passo te encontro, se sempre ao beijar-te beijei mais do que a carne de que és feita, se o nosso casamento definhou de mocidade como outros de velhice, se depois de ti a minha solidão incha de teu cheiro, do entusiasmo de teus projetos e do redondo de tuas nádegas, se sufoco da ternura de que não consigo falar, aqui neste momento, amor, me despeço e te chamo sabendo que não virás e desejando que venhas, do mesmo modo que um cego espera os olhos que encomendou pelo correio.

                                                                António Lobo Antunes ( Trecho do Memória de Elefante)



Escrito por Ricardo Carlaccio às 14h50
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        .

        Esse texto eu saquei da epígrafe do Hell`s Angels do grande Hunter Thompson

       Em meu próprio país estou em uma terra distante

         Sou forte, mais não tenho autoridade nem poder

       Eu venço e, ainda assim, sigo sendo um perdedor

       Ao fim do dia digo boa noite

       Quando me deito sinto um medo enorme

         De cair.

                                                                                                                                      François Villon

 

 

 

 



Escrito por Ricardo Carlaccio às 14h44
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esquinas recheadas de pólvora e insanidade

É isso aí. Lembrei das manhãs sombrias em que eu passava a lâmina na garaganta e me matava aos poucos. Era uma possibilidade enquanto eu procurava a garrafa vazia. Enquanto eu tentava lembrar de tudo. Enquanto eu fazia de mim o pior possível. Daí eu ia  além de ser um misantropo. E afogava  meu ódio em copos vagabundos na sessão da tarde e não entendia nada de caminhos. Brincava de tomar o veneno do loser enquanto ouvia pérolas e ia  a caminho do inferno. Hoje provavelmente é o pior dia da minha vida. Recebi o xeque mate de minha sombra. Procuro alucinadamente pela garrafa de Domecq perdida num teco de paraíso. Um dilúvio destroçado num poema surreal. Um contra ataque ofegante e o mal num copo de destilado me levando pra encostas pedregosas. Assim que eu melhorar  vou me lançar de abismos. E estará tudo acabado e um silêncio interminável me deixa tranqüilo apesar de tudo.



Escrito por Ricardo Carlaccio às 12h26
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        Hot Dog Solitário

 

   Eu tava aqui escrevendo que nem um paranóico. Debaixo de 28 graus às 2 da madruga e o cão que habita minha casa parou do meu lado. Olhou pra minha cara com um olhar circunspecto, deu uma rosnada e saiu fora. Parecia que ele queria me dizer alguma coisa. Eu fui até a cozinha e lhe arranjei um bom teco de bife. Ele se garante no rosnado, não nos seus dentes, o bicho é banguela, foi achado na rua tomando surra de pau e coleciona uma boa variedade de paranóias. Aprendeu a não confiar em ninguém. Detesta que lhe acaricie. Seu lance pode até ser um teco de bife e um pedaço de borracha pra amenizar sua fúria. Mas o que o bixo quer mesmo é uma boa cadela pra foder. Gostaria de meter no rabo dela como nos velhos tempos de vagabundagem pelas ruas. Mas agora ele tem um lar e um cara que lhe dá tecos generosos de carne na madrugada. Agora ele ganhou uma coleira e um pote de ração e passeia pelos arboredos e alguém limpa sua bosta na calçada. Agora ele é obrigado a assimilar o que significa uma família e sua organização sistemática, monótona e castrada. Ele ganhou um par de algemas e cobertas quentes pra se proteger do frio. Ele ganhou um piso limpo e um banho e tosa por semana. Até uma gravata ele ganhou, e a complacência de todos. Ele ganhou um nome e um Staus Quo jamais imaginado. Agora ele vê  através da fresta do portão cadelas mansas passeando em pleno cio e seus velhos camaradas cheios de cicatrizes esbanjando valentia e as currando sem piedade.  Ele late, mas sua reputação nas ruas simplesmente está em baixa. Os cães o ignoram e voltam pra sodomia. Seu olhar beira o desespero e  se fosse um pit-bull provavelmente arrancaria a fechadura nos dentes e devoraria homens inocentes que tentassem impedi-lo no caminho. Seu gás acaba, ele dá um rosnado melancólico e infantil. Seu olho mareja. Ninguém lhe dá nada.



Escrito por Ricardo Carlaccio às 02h23
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