 |
Lonely Boy
Essa resposta de Kerouac para uma revista francesa me fez lembrar quando o Aquiles, um velho chapa, me convidava prumas reuniões sobre anarquismo e outros movimentos de esquerda. Esse blá,blá,blá todo acontecia no apartamento de um figurinha realmente esquisito e travado, que era um velho chapa dele. O Aquiles me ligava aos sábados, durante a tarde, me convidando pruma reunião que no fundo só seria uma disputa de egos. Ali eu sacava que todos iam se fazer de libertinos e intelectuais. E além disso, iam forçar a brodagem. Enfim, eu imaginava que aquilo tudo poderia ser muito chato e então nunca apareci numa reunião daquelas...
Ted Berrigan: Havia alguma noção de comunidade no meio da turma beat?
Kerouac: a sensação de comunidade foi largamente inspirada pelas mesmas pessoas que já mencionei, como Ferlinghetti e Ginsberg. Eles vivem com a cabeça cheia de socialismo e querem que todo mundo viva uma espécie de kibbutz frenético, com companheirismo e tudo mais. Eu era um solitário. Snyder não é igual a Whalen, Whalen não é igual a McClure, eu não sou igual a McClure. McClure não é igual a Ferlinghetti, Ginsberg não é igual a Ferlinghetti, mas todos nós gostávamos de tomar vinho, de qualquer maneira. Conhecíamos milhares de poetas e pintores e músicos de jazz. Não havia uma turma beat, como você falou... O que me diz de Scott Fitzgerald e sua turma perdida, ou de Goethe e da turma de Wilhelm Meister? O assunto é muito chato. Me passa aquele copo.
Escrito por Ricardo Carlaccio às 14h33
[]
[envie esta mensagem]
REBELIÃO NO SESC VILA MARIANA

Escrito por Ricardo Carlaccio às 17h47
[]
[envie esta mensagem]
Bugs Bunny (Dedicado ao Pernalonga e Aos Quatro Alfinetes Negros do Mirisola)
Algumas garotas andam solitárias tropeçando pelos becos, eu lembro de uma que aparecia num clip do Black Crowes no comecinho da década de noventa, era decadente, linda e cheia de drogas na cabeça. Ela parecia perdida, desesperada, agressiva. E eu era um pivete descontrolado que só queria uma garota daquelas pra assoprar um blues no fim da noite e fazer minha viagem surreal no meio dos demônios. Nesse tempo eu andava de coturnos , tinha 55 quilos e varava a noite pelos finais de semana pelos botecos da Treze e da Santo Antônio. Às vezes andava com um vinil de Heavy Metal surrado de baixo do braço e achava que era bem melhor não ter pra onde voltar. O inferno me dava boas vindas e alguns anjos tortos me pilhavam. Eu sabia que alguns deles ficavam guardados no meu quarto, dentro da minha vitrola me inspirando a esquecer tudo e continuar. Era a obsessão pela desistência, pela indiferença. Nesse tempo eu morava no subúrbio, no Butantã, onde nada realmente acontecia de fato. Não havia blues e era extremamente inóspito pra minha alma atormentada. Minha turma habitava a Liberdade, moravam em prédios decadentes do centro. E eu me debandava pra lá nas tardes de sábado e me sentia no Bronx, numa espécie de crime latente e esperava uma rajada de balas a qualquer momento e da minha maneira me sentia feliz. Era tudo uma película em tom sépia ali na minha frente. Tudo o que se pode esperar de um garoto que acha que tem coronárias de aço é o fracasso. Mas o fracasso do tipo daquele desenho do Pernalonga em que ele acha que pode vencer tudo, está tomando um cacete no ringue, mas volta e apanha de novo até mudar de estratégia e se fingir de morto pra dar o jab final que decide a vitória. O que eu quero dizer é que não importa o número de porradas que um cara tenha tomado na vida, elas são louváveis. O gosto de sangue escorrendo do nariz pode ser o veneno do loser, o que faz com que ele se sinta ainda mais forte apesar de estar sendo derrotado a todo instante. Um jab sempre estará guardado no bolso e um blues estará rodando num prato de uma vitrola suburbana.
Escrito por Ricardo Carlaccio às 14h29
[]
[envie esta mensagem]
|
 |
 |