A última Lasanha do Ano

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Escrito por Ricardo Carlaccio às 00h41
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Jingle Hell´s
Chovia um bocado. A tempestade cortava o que dava pra ver da janela de casa: uma interminável série de torres que formavam a linha de transmissão elétrica nos confins da zona oeste paulistana. Não havia postes de luz instalados no meu pedaço. No teco de rua onde eu morava também não tinha asfalto, então a tempestade fazia com que o lamaçal aumentasse ainda mais a tonalidade do dilúvio. Eram tardes incríveis de verão, com cheiro de frango assado e fatias húngaras pra ceia de natal. Com meu cão Skip sapeando a cozinha à espera do meu pai, trazendo um bocado de carne e um punhado de aparas - era o presente de natal do nosso cão.
Eu era um bom moleque glutão, como um bom moleque deve ser. Passava a véspera de natal ansioso. Imaginando onde estavam guardadas as misteriosas caixas de presente e desrespeitando o presépio que meu pai armava laboriosamente. Atropelando as figuras bíblicas com meu jeep safari e fazendo com que eles convivessem com meu mini forte apache na marra. O velho simplesmente chegava na porta cheio de pacotes de comida e abria um sorriso que só um homem consciente da tarefa cumprida pode ostentar. Eu me sentia tranqüilo esvaziando garrafas de tubaína na soleira da porta da sala. Tudo que eu tinha a fazer era esperar pelos primos do interior e depois desvendar os mistérios das caixas e acabar com toda comida que houvesse na mesa. Colocávamos nossas melhores roupas e íamos em bando pra missa de natal. Essa era a pior hora do dia. Na missa de natal a homilia era interminável e a igreja invariavelmente ficava abarrotada de carolas. Mas valia a pena, podíamos dormir mais tarde levemente bêbados de vinho sangue de boi.
O cão Skip morreu e não havia mais sentido pras aparas de carne. Minha mãe foi ficando levemente cansada e as fatias húngaras pararam de ir pro forno. Eu ainda lembro de um natal que eu já tava molecão, com vinte anos. Não morava mais com meus pais e fui trêbado passar o natal com eles. Foi o último dia depois de anos que me fez lembrar o tempo de pivete. Eu não tinha mãos pra carregar tudo que minha mãe havia comprado pra mim. Não tinha mais estômago pra tanta comida. O sorriso tava novamente estampado na cara do meu pai. E eu voltei pra casa com um nó no peito. Imaginando que aquele poderia ser o último.
Desde então essa data foi ficando cada vez mais triste pra mim. A sensação melancólica aumenta a cada ano. Raramente meu pai sorri. Minha mãe resmunga. E eu simplesmente fico pensando que a velhice não pode ser assim. Essa sensação de impotência providenciada pelo resto do mundo. Hoje eu sigo em frente fazendo as coisas que me dão tesão e tento não criar nenhum tipo de expectativa. Apenas faço aquilo que acho que deve ser feito. Talvez nada aconteça e eu nem sequer vou ter uns pivetes pra esvaziar a geladeira numa noite de natal. Talvez eu olhe pela janela do meu quarto e veja as ruas da cidade vazias. E tudo que eu tenha a fazer seja esvaziar uma garrafa de vinho e sussurrar sutilmente “Jingle Hell`s”.
Escrito por Ricardo Carlaccio às 14h37
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