NEAL CASSADY ROUBOU MEU MAVECO
     
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CINE OLIDO 1991

 

 

 

Eu nunca fui muito de ler Drummond ou Manuel Bandeira. A poesia chegou até mim pelo rock and roll. Eu tinha quatorze anos, fazia o primeiro colegial e como era o primeiro ano naquela escola, ainda não tinha encontrado minha turma. O que havia à minha volta era um bando de babacas, um bando de playboys suburbanos com os quais eu não me identificava. Então a coisa toda tava um tédio. Sabe como é, nessa idade o moleque entra numas de abraçar um monte de histórias, mas por menos que seja, as paradas custam alguns trocados, e eu não trampava, não fazia nada, só ficava curtindo rock and roll o tempo todo na goma. E o Bixiga, o  bar onde tava tocando uma banda legal, custava, pra aumentar a coleção de vinis, custava, um livro no sebo também. E eu ali me sentindo meio inerte e ao mesmo tempo pouco afins de encarar um trampo de office boy. Eu morava no Butantan, e sair de lá sete da matina em direção ao centro era um martírio. Daí que num dia daqueles, eu cheguei em casa cheio de testosterona, mas sem ter onde despejar. Eu tava uma pilha, de saco cheio. Liguei a tv e enquanto batia o rango vi que estava pra estrear um filme na sexta, era o The Doors, a trilha sonora bateu forte em mim. Eu precisava daquilo. Era daquele jeito que eu achava que devia ser minha vida. Eu não entendia nada de inglês, mas aquele troço parecia ter poesia jorrando da veia. E não era aquela poesia que eu achava careta, era poesia no microfone, saindo pelo amplificador. Fui ver o filme logo na primeira sessão, no dia da estréia no Cine Olido. Fiquei duas sessões só por causa da trilha sonora. Sai de lá certo que queria ser poeta. Mais tarde descobri Bob Dylan, Kerouac, Gregory Corso. Eu acho que se a  coisa só ficasse no papel eu ia achar que o mundo só tinha Manuel Bandeira e Drummond. Não que o Drummond não tenha poemas bacanas, mas é que eu nunca  li um poema dele em que eu terminasse e dissesse pra mim mesmo: " porra esse texto é realmente do caralho." Simples, a coisa bate ou não, é somente uma questão de gosto pessoal. Um tempo atrás uma garota falou que literatura boa era somente Eça de Queiroz e José de Alencar, eu retruquei que achava aquilo um grande pé no saco. E ela falou que era por causa dessa falta de referência clássica que a literatura tava uma bosta. E eu disse que ela fazendo sexo é que devia ser uma bela bosta. Esse é meu gosto, aquele é o gosto do outro, eu fico com o meu, tu ficas com o teu, e eu nem tô afins de discutir a parada. O texto só é bacana pra mim se eu gozar de verdade, sem punheta. Afinal de contas, se  não fiz nenhum tipo de faculdade é porque eu detesto estudar, e ficar numas de fazer análise de texto seria um verdadeiro purgatório, sendo que meu negócio é o inferno ou o paraíso.

 



Escrito por Ricardo Carlaccio às 20h04
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